sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sem o fim da “Guerra às Drogas” não haverá desmilitarização nas PMs.




     Agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro vasculham favela em busca de drogas.

O debate em torno da violência praticada por agentes do Estado brasileiro frequentemente se concentra na ação de policiais, especialmente os policiais militares que, encarregados do policiamento ostensivo, são colocados na linha de frente da atuação do sistema penal. Logo surge a simplista identificação da qualidade de militares dada a esses policiais encarregados do policiamento ostensivo – os integrantes das polícias militares estaduais – como aparente causa dessa violência. Detendo-se naquela qualificação, muitos falam em desmilitarização das atividades policiais, simplesmente reivindicando o fim dessas polícias militares.

Alguns vão além, propondo a unificação, reestruturação e maior autonomia organizacional para as polícias estaduais, na linha vinda com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 51/2013, que começa a tramitar no Senado, visando “reestruturar o modelo de segurança pública a partir da desmilitarização do modelo policial”.

Desde logo, cabe louvar a referida PEC no que afasta a distorcida concepção militarizada da segurança pública que, paradoxalmente explicitada na Carta de 1988, faz das polícias militares e corpos de bombeiros militares estaduais forças auxiliares e reserva do exército (§ 6º do artigo 144 da Constituição Federal brasileira). É a própria Constituição Federal que atribui às polícias militares estaduais as típicas atividades policiais de policiamento ostensivo e preservação da ordem pública e aos corpos de bombeiros militares a execução de atividades de defesa civil (§ 5º do mesmo artigo 144). Tais funções, eminentemente civis, pois voltadas para a defesa da sociedade e de seus cidadãos, são, por sua própria natureza, radicalmente diversas das funções reservadas às forças armadas de defesa da soberania e integridade nacionais, voltadas para ameaças externas e guerras.
“Não são apenas as polícias que precisam ser desmilitarizadas. Muito antes disso, é preciso afastar a ‘militarização ideológica da segurança pública’”
Eliminada tal distorção, a organização das polícias em entes diferenciados ou unificados e sua estruturação interna – carreira; tarefas específicas derivadas dos dois grandes eixos de policiamento ostensivo e investigação; disciplina; controles internos e externos; formação; e outros aspectos de seu funcionamento – são questões que estão a merecer amplo debate que, naturalmente, há de incorporar a voz dos próprios policiais.

A indispensável desvinculação das polícias e corpos de bombeiros militares do exército e a eventual reorganização das agências policiais longe estão, porém, de significar o esgotamento do debate sobre a desmilitarização das atividades policiais. A necessária e urgente desmilitarização requer muito mais do que isso. A militarização das atividades policiais não surge da mera (ainda que aberrante) vinculação das polícias militares ao exército, ou da mera existência de polícias denominadas militares – neste ponto, basta pensar nas semelhanças entre a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), unidade especial da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) da Polícia Militar do mesmo estado, ou, em âmbito internacional, nos Special Weapons And Tactics Teams (SWATs) dos civis departamentos de polícia norte-americanos.

                                              SWAT da polícia de San Diego (EUA)

Mas, muito mais do que isso, a militarização das atividades policiais não é apenas uma questão de polícias. Não são apenas as polícias que precisam ser desmilitarizadas. Muito antes disso, é preciso afastar a “militarização ideológica da segurança pública” (1), amplamente tolerada e apoiada até mesmo por muitos dos que hoje falam em desmilitarização. A necessária desmilitarização pressupõe uma nova concepção das ideias de segurança e atuação policial que, afastando o dominante paradigma bélico, resgate a ideia do policial como agente da paz, cujas tarefas primordiais sejam a de proteger e prestar serviços aos cidadãos. A prevalência dessa nova concepção não depende apenas de transformações internas nas polícias e na formação dos policiais. Há de ser, antes de tudo, adotada pela própria sociedade e exigida dos governantes.
“A ‘guerra às drogas’ não é propriamente uma guerra contra as drogas. Não se trata de uma guerra contra coisas. Como quaisquer outras guerras, é sim uma guerra contra pessoas”
Muitos dos que hoje falam em desmilitarização e estigmatizam especialmente os policiais militares não têm se incomodado com atuações das próprias Forças Armadas que, em claro desvio das funções que a Constituição Federal lhes atribui, há tantos anos vêm sendo ilegitimamente utilizadas em atividades policiais. Na cidade do Rio de Janeiro, no final do já distante ano de 1994, foi concretamente ensaiada a proposta de transferir as tarefas de segurança pública para as Forças Armadas, só sendo então abandonada porque, como seria de esperar, não se produziram os resultados com que a fantasia da ideologia repressora sonhava (2). Naquela época, não se ouviram as vozes de muitos dos que hoje falam em desmilitarização e estigmatizam especialmente os policiais militares.

O cenário do tão incensado (pelo menos, até há pouco tempo) novo modelo de policiamento iniciado no Rio de Janeiro – as chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) – inclui tanques de guerra e militares com fuzis e metralhadoras, seja na ocupação inicial, seja de forma duradoura, como aconteceu nas favelas do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro, em que o Exército permaneceu ali estacionado por quase dois anos, a partir de novembro de 2010. As vozes de muitos dos que hoje falam em desmilitarização e estigmatizam especialmente os policiais militares não se fazem ouvir, nem mesmo quando, no momento inicial das ocupações, chega-se a hastear a bandeira nacional, em claro símbolo de “conquista” de território “inimigo”, a não deixar qualquer dúvida quanto ao paradigma bélico, quanto à “militarização ideológica da segurança pública”.

O pretexto para a ocupação militarizada de favelas, como se fossem territórios “inimigos” conquistados ou a serem conquistados, é a “libertação” dessas comunidades pobres do jugo dos “traficantes” das selecionadas drogas tornadas ilícitas. Com efeito, é exatamente a proibição a determinadas drogas tornadas ilícitas o motor principal da militarização das atividades policiais, seja no Rio de Janeiro, no Brasil, ou em outras partes do mundo. No início dos anos 1970, a política de proibição às selecionadas drogas tornadas ilícitas, globalmente iniciada no início do século XX, intensificou a repressão a seus produtores, comerciantes e consumidores, com a introdução da “guerra às drogas” que, formalmente declarada pelo ex-presidente norte-americano Richard Nixon em 1971, logo se espalhou pelo mundo.

A “guerra às drogas” não é propriamente uma guerra contra as drogas. Não se trata de uma guerra contra coisas. Como quaisquer outras guerras, é sim uma guerra contra pessoas – os produtores, comerciantes e consumidores das arbitrariamente selecionadas drogas tornadas ilícitas. Mas, não exatamente todos eles. Os alvos preferenciais da “guerra às drogas” são os mais vulneráveis dentre esses produtores, comerciantes e consumidores das substâncias proibidas. Os “inimigos” nessa guerra são os pobres, os marginalizados, os negros, os desprovidos de poder, como os vendedores de drogas do varejo das favelas do Rio de Janeiro, demonizados como “traficantes”, ou aqueles que a eles se assemelham, pela cor da pele, pelas mesmas condições de pobreza e marginalização, pelo local de moradia que, conforme o paradigma bélico, não deve ser policiado como os demais locais de moradia, mas sim militarmente “conquistado” e ocupado.
“Sem o fim do paradigma bélico que dita a atuação do sistema penal, qualquer proposta de desmilitarização das atividades policiais será inútil”
O paradigma bélico, explicitamente retratado na expressão “guerra às drogas”, lida com “inimigos”. Em uma guerra, quem deve “combater” o “inimigo”, deve eliminá-lo. Policiais – militares ou civis – são, assim, formal ou informalmente autorizados e mesmo estimulados, por governantes e por grande parte do conjunto da sociedade, a praticar a violência, a tortura, o extermínio. Colocados no “front” da repressão equiparada à guerra, policiais – militares ou civis – se expõem cada vez mais a práticas ilegais e violentas e a sistemáticas violações de direitos humanos. Como aponta o Inspetor Francisco Chao, porta-voz da Law Enforcement Against Prohibition (LEAP) e integrante da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, “essa guerra, mais do que a nossa força laborativa, sacrificada em investigações ou operações policiais, mais do que o risco de vida, mais do que as vidas dos que tombaram pelo caminho, está deturpando nossos princípios e valores mais elementares” (3).

A missão original das polícias de promover a paz e a harmonia assim se perde e sua imagem se deteriora, contaminada pela militarização explicitada na nociva e sanguinária política de “guerra às drogas”. Naturalmente, os policiais – militares ou civis – não são nem os únicos nem os principais responsáveis pela violência produzida pelo sistema penal na “guerra às drogas”, mas são eles os preferencialmente alcançados por um estigma semelhante ao que recai sobre os selecionados para cumprir o aparentemente oposto papel do “criminoso”.

 O estigma se reproduz nos debates sobre a desmilitarização no Brasil. Concentrando-se na ação de policiais, especialmente policiais militares, deixa-se intocada a ação corroborante e incentivadora do Ministério Público e do Poder Judiciário, de governantes e legisladores, da mídia, da sociedade como um todo. Concentrando-se em propostas de mera reestruturação das polícias, silenciando quanto à proibição e sua política de “guerra às drogas”, deixa-se intocado o motor principal da militarização das atividades policiais.

Sem o fim do paradigma bélico que dita a atuação do sistema penal, qualquer proposta de desmilitarização das atividades policiais será inútil. Sem o fim da “guerra às drogas” não haverá desmilitarização das atividades policiais. Uma efetiva desmilitarização das atividades policiais só será possível através de uma necessária e urgente mobilização para romper com a proibição e sua política de “guerra às drogas” e realizar a legalização e consequente regulação da produção, do comércio e do consumo de todas as drogas.

FONTE: ABORDAGEM POLICIAL.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Policiais Militares se sentem escravizados no trabalho, aponta pesquisa

Tese de doutorado revela que estrutura militarizada é propícia para problemas nas relações com superiores.

 Policiais que se consideram tratados como escravos ou prisioneiros, trabalhando sob constante pressão e a base de calmantes. É esse o cenário a que muitos PMs estão submetidos em seu dia a dia e que aparece retratado na tese de doutorado da socióloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo) Viviane de Oliveira Cubas.

 Para o trabalho, apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), ela entrevistou 15 policiais e analisou as queixas registradas na Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo entre 2006 e 2011. Neste período, foram 1.716 denúncias feitas somente por policiais, sendo que 95,7% do total são reclamações de integrantes da Polícia Militar e apenas 4,1% da Polícia Civil.

 A explicação para a diferença no número de queixas de seus integrantes pode estar no fato de uma corporação ser militarizada, e a outra não. “Os números mostram o quanto essa estrutura acaba propiciando relações bastante tensas entre os policiais”, explica Viviane.

 O resultado da análise comprova o problema de tratamento que existe entre subordinados e chefes na Polícia Militar. Cerca de 80% das queixas tratam de “problemas nas relações de trabalho” e quase metade (39,5%) se refere apenas a assédio moral ou escalas de trabalho.

 Nas denúncias de abuso, por exemplo, a maior parte é contra oficiais superiores hierarquicamente. “O que dá pra dizer é que todo superior, a partir do momento que tem um pouco mais de poder, abre brecha para exercer força sobre subordinados”, argumenta.

 Os abusos

 Dentre as queixas as quais a socióloga teve acesso, há uma, por exemplo, que relata as metas para prisões em flagrante estabelecidas por um comandante que, quando não cumpridas, resultavam na transferência de policiais ou em banhos com água fria e fardados. A denúncia informa ainda que quatro policiais contraíram pneumonia por conta do castigo. Em outra, um oficial relata que, como forma de punição, um major teria obrigado os policiais a pular em uma lagoa com barro e excrementos de animais.

Sobre as escalas, as reclamações normalmente são de sobrecarga nos horários de trabalho. Por várias vezes, os policiais enfatizam cansaço físico e mental após várias horas ininterruptas em serviço, o que aumenta as possibilidades de erros ou agressividade contra cidadãos.
Há denúncias em que policiais alertam para a possibilidade de colegas serem violentos com seus superiores. Em dois casos extremos, um policial teria disparado um tiro dentro de uma base da Polícia, devido ao excesso de trabalho, e, em outro, oficiais teriam presenciado um colega apontar a arma para a própria cabeça.

Muitas vezes, o estresse é provocado pelos próprios superiores. A pesquisadora cita uma denúncia na qual um major e um capitão tinham escalado a tropa para trabalhar na segurança das estações do metrô, entre 9h e 22h, sem meios de comunicação, sem autorização para almoçar, beber água ou ir ao banheiro, além de terem colocado um oficial para vigiar, com a possibilidade de puni-los caso desobedecessem às ordens.

Questões emocionais
 
Na fase em que entrevistou policiais, a pesquisadora abordou a questão dos desvios de conduta, como uso excessivo da força e corrupção. Apesar de os PMs condenarem veemente este tipo de comportamento, a maioria dos que aceitaram participar do estudo viu problemas emocionais - não de caráter ou treinamento.

“Eles entendem que neste tipo de situação o policial saiu do seu controle por questões emocionais. Isso foi um pouco surpresa para mim. Achei que eles tivessem outra percepção disso. Qual a estrutura que os policias recebem para manter o controle emocional? Isso não aparece na fala dos PMs. Parece que a instituição cumpre seu papel. Acho que eles não se dão conta disso”, opina Viviane.

A pesquisa não abordou como os abusos, a carga de trabalho e a infraestrutura influenciam na conduta do PMs durante o policiamento ostensivo, mas, na opinião da acadêmica, os números e os depoimentos podem ser sinais disso. “Isso é uma coisa que surgiu e que tenho vontade de estudar. O quanto esse modelo de tratamento, muitas vezes desumano, desigual e autoritário vai refletir do batalhão para fora? Se internamente eles trabalham numa ótica em que não são iguais, sempre alguém vai estar acima de alguém, como isso vai refletir depois na rua para a garantia de direitos de igualdade? Como desse jeito eles toleram quem questiona a atitude deles? Não é uma coisa que explorei, não estou afirmando, mas é muito provável que isso vá para fora dos batalhões”, conclui.

Fonte: Portal IG

sábado, 17 de agosto de 2013

Em quatro anos, 77 policiais foram afastados por transtorno mental

Na Polícia Militar da Bahia, entre 2008 e 2012, 40% dos PMs afastados por problemas de saúde apresentaram distúrbios mentais e de comportamento. Na sexta-feira, um policial depredou um ônibus no Centro após uma crise.

 Era uma data especial e isso não mudou nada. O soldado Jéferson Alves, 33 anos, então da 58ª CIPM (Cosme de Farias), apontava uma pistola para a própria cabeça enquanto as mães de todo o Brasil recebiam rosas vermelhas e outros mimos. A sua talvez o esperasse para o almoço naquele domingo, 12 de maio deste ano. Sentado na cama, Jéferson ainda conversou com alguém ao celular antes de apertar o gatilho. A PM perdia mais um dos seus homens. Não para o crime, mas para ela própria.


E assim foi com o capitão Alexsander Valério Ferreira, 38, da 15ª CIPM (Itapuã), que também se matou em sua casa, neste caso por envenenamento, no dia 9 de junho;  e com o soldado Aloísio Santos da Rocha, do Departamento de Planejamento, que atirou contra a própria cabeça no primeiro sábado deste mês. 

Os três suicídios de policiais em 2013 até alarmam a Polícia Militar, já que, de acordo com números não oficiais, a média é de dois ao longo de um ano. Mas, pior que as histórias por trás dos suicídios é a constatação de que elas são apenas a consequência trágica de um problema muito maior.

Dados do Centro de Perícias Médicas Militares (CPMM), aos quais o CORREIO teve acesso, mostram que, entre 2008 e 2012, a PM registrou 184 afastamentos definitivos e temporários. Destes, mais de 40% (77) estão relacionados com transtornos mentais e de comportamento. 

 Os casos de síndrome do pânico, tensão pós-trauma, transtornos compulsivos e, como no caso de Jéferson, depressão, se multiplicam e são cada vez mais comuns. Pelo menos cinco policiais militares que tentaram suicídio estão atualmente em tratamento no Serviço de Valorização Profissional (Sevap), responsável pelos atendimentos psicológicos na PM.

Silêncio

A família de Jéferson prefere não falar. Mas amigos e colegas de farda estão certos de que foi a rotina da polícia que o fez cometer suicídio. “Depois que virou PM entrou em depressão. Se isolou, deixou de ser aquele cara alegre”, narrou uma amiga bem próxima. “Não aguentou a pressão e não teve ninguém dentro da polícia que evitasse a tragédia”, disse um colega soldado.

Resultado do dia a dia de violência que Jéferson enfrentava, o Sevap realizou, somente em 2012, 1,4 mil atendimentos — sendo 123 casos encaminhados para o setor de psicologia. Entre os psicólogos do órgão há um sentimento comum de que a demanda é grande demais para o tamanho da estrutura.

“A quantidade de profissionais não comporta. São casos difíceis e crônicos, que duram quatro, cinco meses de tratamento”, afirmou o major Antônio Honorato Barbosa, que assumiu a coordenação do Sevap há cerca de dois meses. “Por isso, nossa prioridade é sanar as demandas organizacionais. Mandar o policial para a clínica só em último caso”, admite.

Casos graves

Nos números não estão contabilizados os 27 encaminhamentos para atendimentos psiquiátricos em instituições externas. São os casos mais graves. Já que não existes psiquiatras na PM, eles são levados para locais como o Núcleo de Atendimento Psicológico (Nead), da Secretaria da Segurança Pública (SSP), Sanatório São Paulo e algumas fundações.

“Na medida do possível, vamos encaixando esses policiais nestas instituições. Às vezes, até pela amizade”, explica o major Honorato.  

De todos, o Sanatório São Paulo é o único com capacidade de internação. “Aqui são comuns pacientes da polícia. São casos e mais casos de policiais internados ou que frequentam o hospital-dia”, afirma, sem se identificar, uma funcionária do sanatório, hoje conhecido como Espaço Nelson Pires.

“O excesso do Nelson Pires existe porque eles são a única opção”, confirma major Honorato. Procurado pelo CORREIO, o sanatório recusou-se a divulgar o número de pacientes atendidos.   

Os distúrbios psicológicos são um problema não só crescente, mas antigo dentro da PM. Um estudo de conclusão do mestrado pela Ufba, do psicólogo Robson Souza, mostra que o problema é grave pelo menos desde o início desta década.

A partir de registros do CPMM, no período compreendido entre 2001 e outubro de 2008, foram avaliados como definitivamente incapazes para a atividade profissional, em razão de transtornos mentais e comportamentais, 295 policiais militares. 


Leia mais:

Após discussão, PM sobe em ônibus e depreda carros no Centro
Polícia Militar cria spa para tratar policiais acima do peso

Índices mostram que, na média, tropa da PM já beira a obesidade

Sem psiquiatras

 Na época, o número correspondia a aproximadamente 1% do efetivo. “Todos foram reformados com idade entre 35 a 45 anos. Uma perda significativa para a corporação”, escreveu Robson, que é psicólogo do próprio Sevap.

A diferença dos dados antigos para os mais recentes é a quantidade de afastamentos definitivos. Atualmente, os policiais são afastados muito mais de forma temporária. Tanto que, dos 77 afastados por problemas mentais entre 2008 e 2012, apenas dois foram reformados.  

Segundo os próprios psicólogos, isso ocorre porque não há psiquiatras para afastar os PMs, o que aconteceu após o fechamento do Hospital da Polícia Militar, há dois anos. Simplesmente, não há quem emita laudos de afastamento. Os médicos psiquiatras de instituição de fora não teriam essa autoridade.

“O que existe hoje é a política de manter o cara na corporação, mesmo que ele não esteja funcionando. Estou tratando um policial bipolar que não tem condições de ir para a rua, mas só posso afastá-lo temporariamente. Já fiz isso várias vezes. Em todas, solicitei também o afastamento da arma”, afirma Robson.

Mas há exceções. Casos tão sérios que nem a própria PM consegue barrar o afastamento. Uma soldado que era lotada na 50ª CIPM (Sete de Abril) sofreu anos com síndrome do pânico, “psicose não específica” e episódios de depressão.

Com mãos trêmulas e olhar sempre direcionado para o chão, ela conta que não suportou a pressão da rotina, o que foi agravado por perseguições de oficiais por conta de sua doença. Hoje, ela toma dois comprimidos por dia de antidepressivos e se diz viciada no medicamento Rivotril. Acabou afastada das atividades em 2011.


Surto

Talvez seja o futuro do PM que, na sexta-feira à noite, depredou um carro e um ônibus na Avenida Joana Angélica. Lotado na 17ª CIPM (Uruguai), o PM se descontrolou e passou a dar socos e pontapés no para-brisa do ônibus, pulando de lá para o capô dos carros que passavam. “Ficou no meio da rua e chutava os carros que passavam”, contou uma vendedora ambulante.    

Em nota, a PM informou que o policial já havia dado entrada na Junta Médica anteriormente. Nesse momento, ele “se encontra afastado das atividades operacionais e administrativas em decorrência de tratamento psiquiátrico a que está submetido”. Após o episódio de sexta-feira, o policial foi internado em uma clínica psiquiátrica.

Depressão é principal vilã da saúde mental da tropa

Por que os consultórios do setor de psicologia da corporação estão cheios de policiais com depressão, estresse e transtornos compulsivos? Para o major, psicanalista e professor do mestrado de Segurança Pública da Ufba João Apolinário da Silva, a doença mental é algo latente no policial. Se o acompanhamento psicológico não for adequado, diz ele, qualquer policial pode ficar à beira de um ataque de nervos.

“Se não tiver apoio, com a rotina que leva e a pressão dos superiores, pode surtar mesmo”, explica o professor. Os próprios casos de suicídio seguem o mesmo caminho. “Quando o policial se vê sem condições de resolver seus problemas, ele opta pela autolesão fatal”.
 
Por isso, a preocupação com aquela que é considerada uma das principais vilãs da saúde mental do policial: a depressão, primeira da lista de doenças. “Uma das consequências da depressão é o próprio suicídio”, diz o psicólogo e sargento Robson Souza. Atualmente, ele  trata  no Serviço de Valorização Profissional (Sevap),  Dendezeiros, cinco PMs que tentaram suicídio.

Tanto João Apolinário quanto Robson destacam que, na última década, a PM passou a priorizar a capacitação operacional dos policiais em detrimento à saúde e ao bem-estar. A descentralização dos batalhões também teria desestruturado o psicológico dos PMs. Foi o fim do sentimento de corpo. “Não adianta ensinar ao policial a brutalidade. O PM tem que aprender a avaliar as situações usando o cérebro”, diz Robson. “Mas, para isso, o comando precisa entender que um policial equilibrado é tão importante quanto bem armado”, completa o major.

Policiais militares são pacientes que demoram a buscar ajuda

Entre psicólogos e psiquiatras, policiais militares costumam ser vistos como pacientes resistentes a ajuda. Mas, aos poucos, essa realidade está mudando. A procura pelo Serviço de Valorização Profissional (Sevap), responsável pelos atendimentos psicológicos na PM, tem crescido. E costuma acontecer de duas formas: pelo amor ou pela dor.

“O PM chega aqui através da influência da família ou, muitas vezes, aparece depois de uma situação de troca de tiros, de acidente com a viatura ou por ter assistido a morte de um colega”, afirma o coordenador do Sevap, major Antônio Honorato Barbosa.

Com 10 psicólogos, 14 assistentes e 4 enfermeiras, o setor tenta dar conta de  acompanhamentos sociais, que vão de palestras sobre alcoolismo nas companhias independentes até programas especiais, como o de combate ao estresse pós-traumático.

As companhias especializadas, a exemplo de Rondesp e Gêmeos, recebem tratamento diferenciado. Ao assumir o setor, há cerca de dois meses, o major Honorato iniciou uma política de expansão para o interior. O serviço já passou a funcionar em Feira e Juazeiro — em breve, Itabuna. Desde 2008, existe um projeto de espaço terapêutico para que policiais passem por sessões de ioga, acupuntura e tai-chi-chuan, mas até o momento não foram disponibilizados recursos para a compra de equipamentos. 

Fonte: Correio da Bahia.